Gravidez e gatos

12 jul

Quem nunca passou por esta situação na Lista Gatos atire a primeira pedra: aquela pessoa adotou um felino e engravidou. Decide, por conselho equivocado de seu médico, doar seu gato por causa da desinformação sobre toxoplasmose.

Acabei de passar por isso hoje, com uma das adotantes de um filhotinho da leva da Madeleine. Fiquei triste, tremi, chorei e quase pedi para ela me trazer o gatinho já. Mas claro que antes mandei uma mensagem para essa lista abençoada e muitos conselhos e idéias apareceram. Também dei um tempo para ela pensar, sentei, reuni tudo e montei um mail completo, que repasso agora para que fique como guia quando isso acontecer de novo com algum de nós.

Devemos ser práticos nesta situação:

1. Perguntar se a gestante ou futura gestante já fez teste para saber se esteve algum dia em contato com o protozoário causador de toxo. Isso elimina as dúvidas em 25%.

2. Testar o gato imediatamente. Nas boas clínicas fazem este teste. O gato estando livre nem temos mais o que considerar. Se tiver tido contato dá para tomar alguma outra atitude, inclusive procurar outro lar.

3. Médicos cercam as pacientes de cuidados (não sem razão), por vezes questionando os animais de estimação. Hoje em dia, médicos mais atualizados ponderam de forma diferente a questão dos felinos. Sabe-se por exemplo que só se contaminarão as pessoas que não tomarem os cuidados necessários de higiene básica como por exemplo:
. Lavar bem frutas, verduras e legumes antes de comê-los.
. Carnes em geral devem ser bem cozinhas.
. Parar de comer sushi e sashimi (peixes crus).
. Tem gato? – Pedir para alguém limpar a caixa de caquinha dele ou usar uma luva e lavar as mãos após.
. A maioria dos casos de toxoplasmose se dá pela ingestão de alimentos infectados.”

4. Algumas matérias sobre o assunto:
http://bebe.abril.com.br/blog/gemeos/?p=82
http://adoteumgatinho.uol.com.br/toxoplasmose.htm5

5. Minha amiga Daniela de São Paulo tem uma comunidade no orkut sobre felinos e gestantes -> http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=8492253

6. Em anexo, a matéria da Dra Marúcia, incontestável do ponto de vista prático e equilibrado.

Bom, se mesmo assim a pessoa não quiser mais os felinos, será melhor encontrar outro lar para eles do que deixá-los à margem da família, ou até mesmo sendo abandonados como tantos que vemos por aí.

Mas ainda acredito que existem pessoas boas que por desconehcimento apenas, numa hora crucial dessas, não saibam como agir. Com um pouco de nossa boa vontade porém, podem mudar a história delas junto de seus felinos.

Beijo.

Texto da Dra Marúcia:

Gestantes, seus gatos e a toxoplasmose

Graças a tantos conceitos ultrapassados e mitos que se perpetuam no meio leigo e profissional, a toxoplasmose continua sendo uma doença polêmica, principalmente no que diz respeito ao convívio de mulheres gestantes e seus gatos. Para nossa tristeza (e também dos gatos) muitos profissionais da área da saúde, incluindo médicos ginecologistas e obstetras e ainda vários médicos veterinários, continuam repassando às suas pacientes e clientes não apenas informações errôneas, mas algumas vezes até absurdas.
A toxoplasmose é uma enfermidade cosmopolita, causada pelo protozoário Toxoplasma gondii, capaz de parasitar animais de sangue quente, em sua maioria servindo como hospedeiros intermediários do parasita. O que implica ao gato um papel de destaque é o fato dos felídeos serem hospedeiros definitivos do agente, portanto, fundamentais para que o ciclo se mantenha.
O que procuraremos mostrar a seguir, é que provavelmente não é o seu gato que contamina você, mas sim (indiretamente) as fezes de qualquer gato.
Existem muitas maneiras de se entrar em contato com o Toxoplasma gondii e adquirir a
doença, dentre elas o consumo de carne crua ou mal cozida, ingestão de furtas, verduras e legumes mal cozidos, e ainda o contato direto com a terra, em procedimentos de jardinagem, por exemplo; o contato direto estrito com os gatos não aumenta determinantemente este risco.
O hábito alimentar dos gatos das cidades vem sendo gradativamente trocado da carne crua (fornecida ou caçada) para alimentos industrializados, como as rações. Além disso, o contato direto de gatos com a terra possivelmente contaminada também vem sendo reduzido, o que reduz circunstancialmente a possibilidade de infecção de novos gatos, limitando assim o ciclo do parasita e a disseminação desta zoonose em nosso meio.
Estudo recente baseado no programa Mãe Curitibana apontou que cerca de 45% das mulheres gestantes em Curitiba são soropositivas para o Toxoplasma gondii, maior que a prevalência em São Paulo (32,4%) e em Salvador (42,0%), mas menor do que em Porto Alegre (54,3%), Recife (69,4%) e Rio de Janeiro (77,1%). Embora uma menor prevalência signifique menor contato com o agente, também significa maior exposição potencial de grávidas a primo-infecção e conseqüente transmissão congênita. Outro estudo também recente mostrou que a soroprevalência da toxoplasmose em gatos, incluindo gatos errantes, é em torno de 17% na região metropolitana de Curitiba, semelhante ao encontrado no restante do Paraná (19,4%), Niterói-RJ (19,5%) e São Paulo-SP (11,8 a 23,6%).
Mas se a prevalência de gatos contaminados é relativamente mais baixa, por que temos tantas grávidas positivas? Na verdade, embora o gato elimine os oocistos (formas infectantes) por apenas 15 dias durante uma única vez em sua vida, quando primo-infectados com o Toxoplasma gondii, estes oocistos liberados no ambiente podem permanecer no solo por meses ou até anos em condições favoráveis de umidade, temperatura e incidência solar, podendo contaminar as mais variadas espécies animais.
Deste modo fica fácil observar que o provável gato transmissor da toxoplasmose a estas
mulheres e população em geral, não é o gato delas, mas sim um gato que deve morar junto às granjas e plantações de hortaliças que elas consomem. E claro que este gato não as contaminou diretamente pelas fezes, mas sim indiretamente por contaminação dos animais de produção (suínos, ovinos, caprinos e coelhos) ou ainda por legumes, frutas, verduras, leite ou água contaminados. Não por acaso, vários estudos mostram que o fator de risco para a infecção de gestantes é o consumo de carne inadequadamente cozida, que contribui em 30% a 63% dos casos; outras como solo contaminado contribuem com 6% a 17%, e o risco de se adquirir toxoplasmose através do contato direto com gatos é extremamente improvável devido às características de eliminação do agente. A possibilidade de transmissão para seres humanos pelo simples ato de tocar ou acariciar um gato, ou até mesmo através de arranhões e mordidas, é considerada mínima ou inexistente. Ou seja, não se previne toxoplasmose congênita eliminando o gato uma mulher grávida, mas sim com cuidados higiênicos adequados na ingestão dos alimentos e com bons hábitos de higiene pessoal.
O uso de luvas e pazinha para a coleta diária das fezes dos gatos, a adequada lavagem das caixas de areia e das mãos são medidas simples, suficientemente eficazes para não se entrar em contato com o agente da toxoplasmose, uma vez que os oocistos, quando eliminados pelas fezes, necessitam de dois a cinco dias para esporular e se tornar infectantes, e permanecerem como tal por períodos de anos.
Todo cuidado é pouco na prevenção da toxoplasmose. Em geral, pessoas e animais portadores do agente são assintomáticos, exceto em pacientes imunocomprometidos, mulheres grávidas e seus fetos, estes últimos vítimas da toxoplasmose congênita. A toxoplasmose humana é ainda a causa mais freqüente de uveíte posterior e sua manifestação mais comum é a coriorretinite, com grave lesão da retina e conseqüentemente, causa de perda irreversível da visão. Por isso é importante que todas as mulheres sejam testadas no exame pré-natal, e o teste seja realizado e interpretado tanto para infecção aguda (IgM) como crônica (IgG). Os gatos raramente apresentam sintomatologia clínica, isto é, podem ser portadores assintomáticos e devem ser testados periodicamente; lembre-se de que os kits sorológicos para os gatos são espécie-específicos (em sua maioria IgG) e, portanto, kits humanos não funcionam para gatos.
Como medidas preventivas, recomende sempre o consumo de carnes cozidas pelo menos a 66 ̊C e carnes cruas apenas quando pré-congeladas a -20 ̊, frutas, verduras e legumes bem lavados e mergulhados em solução 1:1000 de hipoclorito de sódio, manter diariamente a higiene das caixas de areia dos gatos e incinerar os dejetos, oferecer aos gatos somente alimentos comerciais ou pré-cozidos, manter granjas, baias e local de armazenamento de ração sem a presença de gatos errantes, impedir o controle de roedores pelos gatos, telar parquinhos e praças municipais e escolares, para evitar o acesso de gatos errantes, manter hortas devidamente cercadas e sempre usar luvas para jardinagem.
Concluindo, o contato de gestantes com o Toxoplasma gondii e conseqüente infecção está certamente relacionada aos hábitos de higiene e alimentação, e não no contato direto do proprietário com seus gatos. Portanto, não há o menor sentido em se recomendar a uma mulher grávida que livre-se do seu gato para evitar a toxoplasmose congênita. O ideal seria realizar a sorologia pré-natal da proprietária e o exame sorológico de seus gatos, interpretando o resultado e possível risco da convivência entre ambos, para então serem tomadas precauções inteligentes, que não afetem a interrelação homem-animal que é sempre saudável em qualquer fase da vida.
Por: Marúcia de Andrade Cruz , médica veterinária, mestranda em Ciências Veterinárias
UFPR, Juliano Leônidas Hoffmann, médico veterinário, mestrando em Doenças Tropicais
UNESP, Botucatu/SP., Patrícia Yukiko Montaño, acadêmica do Curso de Medicina Veterinária UFPR., Alexander Welker Biondo, médico veterinário, professor Adjunto de Zoonoses, Departamento de Medicina Veterinária, UFPR.
Fonte: Revista CRMV-PR 22ª edição

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5 Respostas to “Gravidez e gatos”

  1. Maga 13/07/2010 às 3:30 pm #

    Ma, vai dar tudo certo…

    Obrigada por este blog que é de um carinho e utilidade incontestável…

    amor da Maguinha

  2. marta 16/07/2010 às 4:48 pm #

    Olá
    adorei o vosso blog e como mãe babada de um menino e dona babada de 6 gatos posso dizer que estar gravida e ter gatos é algo que pode e deve ser levado o mais normalmente possível e só é preciso tomar alguns cuidados que em nada afectam a vida da gravida ou dos gatos.

  3. Kelly Resende 19/07/2010 às 11:56 pm #

    Olá, adorei o blog e o post! A desinformação sobre esse assunto é tão grande que já me cansei de ouvir que eu estaria colocando a vida da minha filha em risco por ter gatos, um absurdo! Vou citar seu post lá no nosso blog, ok?
    Abraços

  4. Giseli Di Domenico 07/01/2013 às 1:52 pm #

    Adotei um gatinho estou na 27°semana de gestação enão me arrependi,ele me deixou mais calma e menos sensível!!

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